A proximidade com a morte

Desculpem o melodramatismo deste post mas o que tem acontecido na minha vida têm-me marcado muito.

Tenho pensado e repensado nos últimos tempos que, se morresse hoje (fosse qual fosse o motivo), morreria feliz. Feliz, realizado, em paz, sem remorsos. Digo isto porque desde uma conhecimento marcante há uns anos deixei de deixar (desculpem o pleonasmo) coisas por fazer - sou sincero e, aquilo que tenho para fazer faço-o no mesmo dia ou o mais cedo possível.

Faz hoje uma semana (mais propriamente daqui a duas horas) que recebi um telefonema desagradável - durante a noite. Acho que ninguém gosta de ouvir o telefone durante a madrugada - desde pequeno que tenho pesadelos e, sabe-se lá porquê - ironias. A verdade é que saí disparado de casa e percorri 70 km quase no máximo que o meu carro citadino consegue dar. Felizmente cheguei a tempo para ver pela última vez aquele que foi um dos meus pais, a minha referência e figura masculina, o meu suporte profissional, científico, académico e muitas vezes pessoal. Apesar de esperada há muito, esta morte não era esperada para mim. Aconteceu! Posso dizer que foi em condições humanas e rodeado das poucas pessoas que lhe eram queridas e que lhe queriam bem.

Hoje consigo pensar naquela noite fatídica que me fez estar acordado mais de 50 horas e sofrer horrores.

Pensam vocês, leitores do meu blog, "mas porque raios é que este fulano escreve aqui como se fosse o seu diário"?

A morte é um assunto em que eu tenho reflectido nos últimos anos da minha vida - tive de lidar com vários lutos difíceis. Vão-nos arrancando pedaços, bocados, fatias - vamos ficando diferentes, obrigatoriamente. Alguém próximo me disse que esses lugares serão preenchidos por lembranças agradáveis que ficarão para sempre - pergunto se não ficarão cicatrizes que, ou nos tornam mais fortes, ou nos tornam mais fracos. Não sei. A verdade é que desapareceram.

Não sei se sou ateu ou religioso - a verdade é que cada vez mais me sustento na fé para suportar tudo na vida, especialmente as mais difíceis.

A pessoa a quem me refiro como sendo um dos meus pais várias vezes me aconselhou activamente sobre a minha condição de saúde - a nossa doença, caros leitores. A verdade inegável é que a doença de Crohn pode trazer-nos consequências que nos aproximem da morte em relação à morte comparando com o cidadão comum e "saudável". Quando o confrontava com algo do género ele, pessoa mais do que idónea no que diz respeito a matérias da saúde, respondia cinicamente - "tem cuidado a atravessar a passadeira".

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Estratégias para medicação a tempo e horas

Gânglios cervicais - assustado!

Revisão da terapêutica para as úlceras orais - parte III