Eu e o meu amigo Crohn

Parece-me importante contextualizar-vos em relação à minha história clínica. Tenho 24 anos e sou do sexo masculino. O diagnóstico de doença de Crohn foi feito em Setembro de 2013 - desde então deixei de estar doente para ser doente. No entanto, o percurso não foi assim tão simples. Os sintomas começaram a surgir desde cedo (infância) com úlceras orais (ou aftas, se preferirem) múltiplas e persistentes. Com 15 anos as dores abdominais surgiram e o refluxo gástrico aumentou. Durante esse período fiz vários exames e, em relação à terapêutica apenas fiz uma erradicação de helicobacter pylori. Relativamente às dores abdominais "é da ansiedade" e o Sr. Dr. propôs ainda "porque não fazer uma consulta de pedopsiquiatria".
Como adolescente que era (perfeitamente integrado na sociedade, creio eu) não gostei de ouvir as palavras do médico. O acompanhamento passara a ser feito pela minha médica de família. Os exames continuaram - quem, de vocês, é que ainda não fez uma colonoscopia, endoscopia, ou um enema de bário. Fiquei, então, cliente dos seguintes medicamentos: omeprazol (hoje estou com esomeprazol) e mebeverina.
As dores continuaram e, já com 17 anos, fui parar à consulta externa do hospital onde ainda hoje estou. A médica que me acompanhava, infelizmente, deixou de trabalhar nesse hospital coincidindo com a inexplicável redução da intensidade e frequência das dores. Fiz um intervalo de 4 anos por quase não haver sintomas que justificassem a procura de outras causas ou a mudança de terapêutica.
Mas, com 22 anos, tudo começou a ser diferente, para pior. As dores voltaram, a agudizar rapidamente, mas não tão intensamente que merecesse um episódio de urgência. Diarreias, dores abdominais, flatulência, etc.
Por coincidência conheci uma médica dermatologista do mesmo hospital, com quem estava frequentemente. Começava a ficar alarmada com algumas das coisas que lhe contava. E, sobretudo, as úlceras orais (ou aftas) eram "atípicas", segundo ela. O diâmetro e a coloração não eram normais, assim como a frequência e número. Recomeçou a saga hospitalar, desta vez com uma intensidade diferente. Apenas com base no seu senso clínico, põe a sua primeira hipótese diagnóstica: doença de Behçet. Tive as primeiras consultas de: gastroenterologia, medicina interna, dermatologia (para bispar a úlcera e pesquisar granulomas). São estas as consultas que continuo a ter.
Cada um puxa a brasa à sua sardinha (leia-se opinião médica e sensata) - e em cima da mesa está o Crohn e o Behçet. O diagnóstico diferencial foi demorado e difícil, mas não vos vou incomodar com estes pormenores.
Em suma: tenho o diagnóstico de doença de Crohn desde Setembro de 2013.

Ainda voltando ao assunto inicial da opinião do Sr. Dr., não digo que não haja uma relação entre a ansiedade e o aumento da sintomatologia. Mas digo, e com convicção, que a causa não é a a ansiedade. Se não vejamos: eu sou uma pessoa com uma vida "normal" que, quando está ansiosa, fica "com dores de barriga"; uma pessoa que não esteja doente, se calhar tem episódios na sua vida que lhe provoquem uma ansiedade bem maior mas não ficam "com dores de barriga". 
A justificação está dada? É, pelo menos, isto que eu digo a toda a gente que me diz que "isso deve ser do nervoso".

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